domingo, 25 de junho de 2017

Divórcio

 António da Luz Santos André, solteiro, maior, de mente cada vez menos sã, contudo declara a sua firme intenção de se divorciar desta realidade pardacenta, cinzenta, mesquinha, atrofiante, mercenária, aviltante, conformista e conformante, declaro-me insatizfeito com toda a espécie de justiça a começar pela divina, que nos condena a todo o género de torturas, "pois Deus as suportou!" Onde Coreanos, Trampas, Árabes, fundamentalistas, doidos varridos de todas as espécies Zé Eduardos, Cavacos, Sócrates, vão enchendo a pança à custa de todo o género de esquemas e falcatruas e justiça divina a existir fuminá-los-ia coriscante em raios assim que saíssem à rua, não me falem em justiça divina pois a não ser que os cozam no meio de tormentos que fariam o Torquemada (outro) fechar os olhos como uma adolescente num filme de terror, não a aceito.
Muito menos aceito a humana, a pretexto da qual por detalhes técnicos e por todo o meio de expedientes é possível livrar do cadafalso, a verdade é que não há justiça, a havê-la seria pelo Ricardo Salgado que passaria todos os dias a caminho do Ginásio e ali numa parede mais abrigada seria sempre a ele que o veria de longas barbas e ar ressacado e não o desgraçado que sempre lá vejo acompanhado de tinto de pacote, a cagar em via pública, a justiça humana a existir e a ser boa, teria o Carlos Silvino castrado, químicamente ou físicamente como preferirem, mas impossiblitado de ter, ou levantar, a pila, a justiça humana a existir e a ser boa daria ampla satisfação e redenção aos injustiçados, aos expropriados, aos humilhados, não só não dá, como nem chega a parco consolo.

É Profundamente lixado com Deus e com o os homens, que me divorcio da realidade e nela não residirei um só minuto a mais que o necessário, que o exigido por trabalho, por um amigo, ou por outra causa que considere meritória, tenciono emigrar para terras de imaginação e lá estabelecer residência, é em mundos que nunca existiram que vou residir, em mundos onde a tal justiça sacie, e seja plena, onde haja um grama de decência, onde possa alcançar paz e alguma tranquilidade, ou mero fascínio.
Quanto à minha alma imortal, vem comigo de malas e bagagens decidida a caso Deus no dia do meu Juízo me disser "Não me vieste adorar todos os Domingos, nem prestaste homenagem ao meu clero!" responder-lhe-ei, "Tu me formaste à tua imagem, sabendo de antemão toda a minha vida antes que eu fosse sequer nascido, tu desenhaste as minhas alegrias e as minhas dores, não entendo ainda com que fim e quiseste que nas minhas dores e nas faltas de sentido que elas geram, olhasse para ti e visse exemplo, de submissão, de serviço e de Amor, acima de tudo de amor, mas de que serve o amor a um Deus que não escuto, nem sinto, que é um ideal, um mito, que quero sentir, que tudo faria para que me estoirasse no peito como há uns anos, mas a verdade é que apenas ouço rugires de dor e de tormento quando o busco, o sangue dos mártires, que morreram em dor proclamando-o, e para que é preciso sofrer por um Deus de amor? Que necessidade tem um Deus da dor dos seus seguidores? É prova de amor? Sente-se acompanhado pelo nosso infortúnio? Será o sal das nossas lágrimas tempero da sua imortalidade? Teremos pelo Seu Calvário de errar pela terra esmurrando o próprio peito, proclamando qual Job "Deus o deu, Deus o tirou, Bendito seja Deus?"

NÃO

Recuso-me, divorcio-me de um Deus que curou cegos e paralíticos, mudos e toda a sorte de crentes, e não ajuda todos os que sofrem, que escolha maldita terá no ventre materno feito um recém nascido com cancro? Uma criança, um qualquer homem? É ele quem decide que nasce em África e é condenado a um inferno vivo, e quem nasce nos Estados Unidos e que nunca conhecerá o que é ter sede fome ou privações de qualquer ordem?
É ele que decide quem nasce com um corpo escultural e esbelto atraeente e desejável a quem todos os pecados serão perdoados a quem a simples presença será um bálsamo e quem nasce gordo e pesado, doente e anafado, feio e macilento objecto de escárnio desde tenra idade até à cova, dos confins da solidão de um feio, das maldições que encerra em cada lágrima às paredes do seu quarto a cada pessoa que lhe nega afecto?

Divorcio-me disto, desta arbitrariedade desta falta de sentido, quando for o dia do meu julgamento e me pedir contas dir-lhe-ei, "condena-me ao que quiseres mas não te atrevas a dizeres-te um Deus de amor quando nos condenas a tanto sofrimento, viveste na pobreza material sim, passaste desde o Horto das Oliveiras ao fim da Cruz, tormentos como nem sequer imagino, e quantos mais não são torturados como ninguém imagina apenas por não arredarem pé de Crerem em ti?
Quanto são degolados, decepados, queimados, torturados, violados por se dizerem Cristãos? E onde está a justiça para eles, onde está a recompensa das suas dores? Onde está a mão que desfaz os seus opressores? Seremos todos Abéis, para tanto Caím?

Criaste-nos apenas para que te louvássemos?

A tudo isto não tenho resposta apenas falta de sentido e falta de resposta, até a ter divorcio-me, decido não residir neste mundo decido deambular o mais possível, decido viver onde a vida realmente faça sentido, decido viver onde haja beleza que possa tocar e que me deixe que eu a toque, Creio que Deus exista, Creio ainda que seja bom, mas já não Creio assim tanto na sua potência para evitar que o mal nos ocorra, aliás o mal tem de ocorrer, mas estou farto dele, se for penar, de acordo, já peno! Recuso contudo ter medo de Deus, a ter algo por Deus quero ter amizade e amor, nunca medo, estou farto de medo, medo já o mundo tem em farta demasia.
Quero um milagre para mim, nada menos me satisfará, nem que esse milagre seja o renascer da minha fé...

Até lá divorcio-me. 

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