terça-feira, 25 de abril de 2017

Choose 25 de Abril Sempre, choose your future, choose life

 Choose life, Choose freedom and democracy, choose 25 de Abril sempre o cravo na lapela e acreditar que finalmente somos livres.
Choose cinco mandatos do Cavaco, choose os comentários da Manuela Ferreira Leite, Choose uma esquerda políticamente correcta e uma direita mais impotente que um octagenário.
Choose Sócrates, Isaltino, e trombas de água chorada pelo Soares, Choose culpar os pensionistas, os subsídio dependentes, os ciganos, os pretos, os comunistas, os flauto freakys os perro freakys, a FENPROF, os homossexuais, e toda e qualquer minoria com costas largas o bastante para arcar com ódio mais sedimentado que o tecido adiposo do Fernando Mendes.
Choose aproveitar o 25 de Abril para ir à praia tirar uma selfie com o i-phone mais revolucionário de sempre com a sua bela capita com cravo e marcá-la com #25deAbrilsempre #revoluçãodoscravos e #1974forever.
Choose entoar a Grândola, choose ver o discurso da Assembleia e crer que as trevas já lá vão.
Choose cagar d'alto em ter um país servil e bajulador que olha para os países ditos de 1º mundo e implorar-lhes que nos encham as praias Algarvias, choose receber bem os ditos camones e rastejar pelos seus €€€ ao passo que migrantes e todos os turistas de pardieiro civilizacionais nem nos podem passar debaixo da penca, sem termos uma reacção semelhante a cheirar peixe podre.
Choose ir sempre na conversa da esquerda que ainda hoje e sempre berra bem alto "25 de Abril sempre!!!!" e nem nos damos conta que muito pelo qual vociferavam já é atingível era possível implementar, como o fim das touradas e do circo com animais e continuam a agir como se fossem oposição.
Choose ir na cantiga e botar um X escarrapachado em frente à fronha do Medina, e ignorar que meteu durante um ano Lisboa num pandemónio que se irá manter por bom tempo e será resolvido mesmo a tempo das seguintes eleições autárquicas.
Choose olhar emocionado para o Papa Chico nos 100 anos das aparições de Fátima, e ignorar os clérigos tresandantes a alho que no interior do país não dão a Eucaristia a divorciados, já agora choose ignorar os pecados que ainda assolam a própria Igreja Católica apesar do seu dingíssimo Sumo Pontífice e com os quais ele mesmo tanto luta, choose crer que Deus odeia os paneleiros, os drogados, as quengas, quando há dois mil anos eram esses os seus companheiros, menos quando eles contribuem em numerário para as obras, e mesmo assim exortá-los a emendar a vida.
Choose ter um país com uma história e culturas vastíssimas, e abastardar tudo para as Bershkas e Mangos, choose abrir um McDonald's em pleno Chiado num edifício histórico, quando a menos de 500 metros há uma igual e idêntica fábrica de enfartes e colestrol, onde se pode ir buscar um hambúrguer da melhor carne por 1€ e uma salada a 5€ (claro que faz sentido).
Choose a Cristina Pereira aos guinchos, a querida Júlia, o Goucha, e as mil e uma maneiras que desfilam na televisão nacional de por os miolos a marinar, choose seguir essa cambada toda por redes sociais, e botar-lhe likes à maluca quando elas dizem que adoram ir ao solário com cremes da marca X ou Y, anúncio esse devidamente pago e à custa de um pouco de carne nua os inergúmenos "likam" à grande.
Choose matar italianos no Derby, choose berrar bem alto pelo clube, choose ignorar que é essa a única forma de ódio correcta e institucional, que de um lado nos incentivam tímidamente a sermos correctos, cortezes, educados, gentis, de repudiarmos o racismo e de não tratarmos mal os animaizinhos, e choose ignorar que por outro lado dão tempo de antena ad nauseam, aos jogadores, aos treinadores, e logo ao Jesus que a cada intervenção faz o Camões dar três encarpados à rectaguarda, acirrarem ódios apelarem à divisão, virem os comentadores os rufias do recreio berrarem mais um bocado, e porem em cheque toda e qualquer boa educação, a tal que é tímidamente incentivada, e em nome de quê perguntam e bem? Pois claro pelo €€€€
Choose acreditar que é este o modelo que temos de seguir, choose crê-lo com fanatismo fundamentalista, choose repudiar qualquer outro modelo, choose nem ver que graças à sociedade de informação há milhentos outros modelos possíveis, mas este está sedimentado e desenrraízá-lo é duro tira €€€ a muito bom lambão e pior dava trabalho...

 Choose 25 de Abril Sempre
Choose your future
Choose Life.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Morte lenta

 Das centenas de murros que o seu rosto recebeu, o último, quase uma carícia, dado que o seu agressor estava já exausto, chocalhou-lhe com tal violência o cérebro, que outro remédio não havia senão a morte beijá-lo e levá-lo consigo.

Os segundos passavam lentos, a quimioterapia, que o deixava careca, frágil, nauseado, que o fazia suar, que lhe tirava as forças, que lhe roubava brilho e força, que o faziam implorar pela misericórdia de não acordar, um dia, magro frágil, exausto, vencido, farto, levou aos beiços uma garrafa de absinto e bebeu para que na última gota a morte o beijasse.

Eram uma legião, todos berravam e riam extasiados, grunhiam enquanto cada canto dela era desapossado de si, rasgavam-na, usavam-na, despejavam nela, horas, esquecera o que era algo que não fosse dor, já não tinha dentes com que morder e as suas mãos já foram há muito quebradas, de costas contra o chão bateu com a nuca no pavimento até perder os sentidos, não voltou a acordar e a última coisa que queria era um beijo.

Era gordo, era ridículo, era fraco e miserável, vestia-se de forma estranha, passava o tempo a ler BD ou outras coisas, cuspiam-lhe em cima, agrediam-no humilhavam-no, era como se até naquela tenra idade o mundo já berrasse pela sua morte, no dia que o despiram diante toda a escola, rindo-se dele, correu aflito até uma janela cabeceou-a e sorriu quando uma lasca de vidro lhe abriu as goelas.

As vozes não se calavam, era como se acotovelassem para o ofender, não estava ninguém ali, mas ouvia uma multidão que lhe berrava do lado de lá da parede, trovejava lá fora, e era como se fosse noite de Santo António, até os navios no porto a mais de uma cidade de distância se ouviam berravam pela sua morte, e conheciam-no melhor que ele mesmo se conhecia, cada palavra era um prego ferrugento que lhe entrava carne adentro, perguntava-se se Deus o perdoaria, todas lhe sorriam más que não, foi para o chuveiro, abriu a água, ligou o secador e após alguns esticões as vozes e tudo o mais foram finalmente silêncio.
"Para se morrer não é preciso sofrer-se tanto!" Pensava... há dez anos preso a uma cama, há dez anos que só conseguia fechar os olhos, falar, e pouco mais, todos os dias lhe levavam a arrastadeira, suja de urina e fezes que nem sentia expelir, por vezes lá vinha alguém vê-lo, mas a maior parte dos dias era uma rotina de ridículo, contemplar desde que acordava até que adormecia o mesmo tecto que nunca mudava, dormir e em sonhos ser gozado por Deus com sonhos do que era andar, do que era poder comer sozinho, do que fora fazer amor, do que era viver, apenas para acordar preso à mesma cama de há dez anos, só, inútil, quebrado, ridículo, o que seria a sua vida se não estivesse ali? Queixar-se-ia, da monotonia da sua vida? Do patrão? Do Sporting? Da mulher? Dos filhos? Atrever-se-ia a sentir-se infeliz e miserável se não vivesse os seus dias amarrado a uma cama? Tinha tempo de estar morto, iria ter muito tempo para isso, mais ainda que os dez anos que passavam a conta gotas, um dia pediu um gravador, dictou livros... uns quantos bons, viajou universos pelos delírios da imaginação, quando o corpo quebrado não lhe consentia um só passo, quando a morte finalmente o beijou, sentiu todo o corpo tremer, despediu-se dele e foi viver nos seus mundos...

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Natal 2016

Com todo o devido respeito pelas árvores de Natal, das iluminações de Natal, pelos barbudos Pais Natal, pelos filmes natalícios, pelas milhentas prendas, pelos romances de Natal, pelas crianças e os seus róis de prendas, pelas peregrinações a Times Square, pelos simpáticos vendedores natalícios, pela prosperidade e saúde férrea do capitalismo nesta sua mais sacro santa das festividades, em que já não se pode concerteza celebrar o nascimento de Cristo pois Esse, viveu toda a vida na mais recatada humildade, na mais simples e despojada simplicidade entrou no mundo numa manjedoura aquecida pelo bafo de um burro e duma vaca, pois nem um estalajadeiro se dignou recebê-los...
Já hoje a coberto do pretexto do seu nascimento erguemos a mais alta torre de Babel numa ânsia desenfreada de consumo, onde o mais caro e precioso é o mais desejável, qual manada desenfreada inundamos centros comerciais sempre ao som catita de jingle bells...
Aos portões da Europa há quem morra enquanto enfiamos colectivamente a cabeça na areia, para fazer fluir o sacro santo óbulo armamos ambos os lados do conflicto, e com esse sacro santo óbulo compramos toda a tralha que somos capazes de imaginar...
Petizes em fúria exigem o jogo da moda, o novo Iphone, o novo Ipad, para sentirem o quanto amados são, rebelam-se em birras, berram, descabelam-se, choram baba e ranho se na noite de Natal as oferendas não forem apaziguantes qb...
Inundam-se as salas de cinema dos clássicos natalícios onde não pode faltar o romance para meter a lagriminha ao canto do olho, ou da comédia onde no final todos descobrimos o espírito natalício, onde o santo Nicolau da coca-cola, aparece no seu pitoresco trenó onde não pode faltar a sua santa rena de penca vermelha, e o seu volumoso saco de oferendas para os meninos que comem a sopa e fazem pouco chinfrim...
Gastam-se orçamentos municipais para a árvore de Natal mais pipoca, para o mais elaborado presépio, luzes e música, areia e circo...
É um grito cada vez mais esquizofrénico para perseguir a felicidade pela acumulação e açambarcar tralha, onde ninguém tem o menor direito de se sentir triste, de estar miserável de não ter dinheiro, de estar soturno, de não gostar de todo este espetáculo, de dizer algo deprimente, de ir às festas de Natal, de sorrir com o sorriso cada vez mais gasto e amarelo...
Vêm os sacerdotes da geringonça, desejar-nos um feliz Natal, apelar à nossa perseverança, à esperança vã, insuflar-nos tretas, desejar-nos uma saborosa côdea bolorenta, que os seus cães amávelmente dispensam...
Apela a Jounet à caridadezinha, metemos de sorriso nos rostos após a missa de Domingo, onde fomos exibir a nossa santidade e fé, a nossa calma bondade ouvir o pertinente apelo à santidade desde que tenhamos como comportar as esmolas indulgentes, e depositar um óbulo na caixinha das esmolas, sorrimos de ar cordato, a Jounet compra salsichas e esparguete para calarmos uma vez ao ano quem tem fome para lhe enfardarmos golas abaixo comida reles dada mais na esperança que a esmola seja mais para a nossa triste consciência que para a fome do pobre, que treme o Inverno todo com o diabo a comer-lhes a vida, e a quem as tripas não param de roer em vazio, a quem a mente já atraiçoou de vez, aos que escolhemos não ver, aos que escolhemos fingir que não estão ali, aos que o direito não protege, à massa anónima que morre de frio e fome...
Lá longe continuam a rebentar em nome de deus, matam, violam, torturam, destroem tudo em nome de deus, que quer sangue infiel com que se banhar, que odeia até ao fim dos tempos quem não crê nele, que odeia mulheres, que ama torturas auto infligidas por sua santa penitência, esse deus negro que berra pelo fim da razão, e que quer de novo submissos todos os que se lhe opõem todos os que não creem o creem diferente, diabo mascarado de deus...
Mas o único deus que algum dia servem é o óbulo, é esse sangue pantanoso e negro que flui a todos os níveis desta nossa miserávelmente distópica sociedade, é essa merda que rezo para que o seu inventor pene bem penadas todas as miseráveis dores que ainda se sofrem sempre que alguém quer ter que comer e não tem como comprar o seu sustento, essa mais porca das invenções a troco da qual as mulheres vendem os seus corpos à devassa de putanheiros, abrindo os seus corpos aos devaneios de quem lhe dá óbulos, essa miséria a troco da qual se vendem virgindades, se vendem crianças aos devaneios de velhos que nem o ar que respiram merecem, essa porca invenção sem a qual já nem consideramos o que é vida, a troco da qual toda a vida é alienável...
Podem enganar-se como entenderem, mas não é sangue o que nos corre nas veias, são óbulos, não é de Deus a nossa alma, é do óbulo, Deus só terá a nossa alma de novo quando formos livres do óbulo e é assim que conquistamos algo de jeito, a reaprender a viver sem essa miserável invenção que acorrenta o género humano à fome, a miséria, e à desgraça, que nos faz sofrer pesado assassino, desperdício e vilania, que nos torna bichos e não homens...


O Natal a existir e a ser bom terá de ser purgado do santo da coca-cola, terá de ser purgado do óbulo, e terá que ser humano, não vos desejo prendas, não vos desejo conforto, desejo-vos valor, coragem, ânimo sôfrega sede por algo valoroso e bom, humana e rara bondade...

sábado, 26 de novembro de 2016

Fidel

 Com todo o devido respeito aos meus amigos não comunistas, eu também não sou...
Mas...

Morreu hoje um homem que lutou, matou, fuzilou, sim tudo certo, que tudo isso fez, às portas do seu maior e definidor inimigo, que valeu a Cuba um embargo brutal que durou até este ano, Chamam-no hoje no dia da sua morte ditador e tirano, e aos ianques que efectuaram o referido embargo?
Embargo esse motivado pela possibilidade de existência de misseis nucleares russos em Cuba durante a guerra fria, cuja manutenção até aos dias de hoje foi uma verdadeira atrocidade e louve-se o Obama (cada vez mais) pelo seu levantamento.
Esse embargo tal como a invasão do Iraque que foi motivada pela possibilidade de armas de destruição maciça que nunca existiram de igual modo nunca foi confirmada e provada a existência de misseis nucleares russos em solo cubano.
Hoje a maior parte de nós concorda que a invasão militar do Iraque foi um erro motivado pelo petro-dólar, hoje a maior parte de nós concorda que a dita invasão se calhar não deveria ter sido efectuada.
Então porque raios um embargo, que perdeu a razão de ser com a queda do muro de Berlim e a dissolução da URSS em 1989, se manteve até 2016? Ninguém pestaneja perante isto?

A isto acresce,

O Facto de o povo cubano viver em condições de deplorável ditadura sob o regime fascista de Fulgêncio Baptista endossado e apoiado pela então administração americana, com pouca ou nenhuma educação, com perseguições políticas, com presos políticos, com mortes, com tortura, um pouco como a administração Bush e como se prevê a do Trump, mas em solo estrangeiro aos Estados Unidos, a libertação da ilha pelos “barbudos” um grupo comunista, à data em que os Comunistas não comiam criancinhas, mas eram uma presença mais poderosa que são hoje, os referidos barbudos eram uma força a eliminar, pela sua amizade com os russos, facto pelo qual a ditadura de Fulgêncio Baptista foi apoiada, armada, endossado o seu regime e os seus crimes, mas desses ainda não ouvi ninguém a falar hoje...
Tomada Cuba com o que começaram por ser 7 (sete) espingardas, facto demonstrativo da adesão popular que os tais “Barbudos” tiveram.
A CIA e o Hoover (um tipo mesmo porreiro, um patriota e um exemplo a tudo quanto é aspirante e capitalista, um homem de fé e ideais de princípios tão Cristãos que nunca destoaram da missa de Domingo) tentam retomar Cuba pela força, são detidos novamente pelos tais “Barbudos” na Baía dos Porcos.
Tremem os Estados Unidos quando se pensa que mesmo ali ao lado estão misseis nucleares Russos, por pouco não estoira a 3ª Guerra mundial, (vai estoirando daí em diante um pouco por toda a parte com outros nomes e outros inimigos, aos quais o único e verdadeiro aliado do mundo livre é o intrépido e arrojado império Norte-Americano, defensor inabalável da liberdade e da “'mocracia” dos valores cristãos, do American Dream, do bom pai de família, de dois Fords a cada porta, da bruta vivenda em Palm Springs, de Hollywood, das musas da Playboy, do Superbowl, das cheerleaders, de criancinhas aprumadas na catequese, dos pais empreendedores na Bolsa de Wall Street, dos pastores frenéticos, das morais absolutas, do Johnny Walker, e da América que o Phillip Roth descreve infinitamente melhor que eu, da América que hoje redunda num excesso de hormonas, em ridículo, em extremo de ridículo, do orgulho no porte de arma, na liberdade de expressão de tudo e do seu contrário, do delírio adolescente do prom, onde só se pode beber uma cerveja aos 21 e ter uma arma aos 18, o que por sua vez inspira décadas de mau cinema, de delírio com o físico, de delírio com o atraente, nu, pornográfico, do excesso, do delírio onanístico com o imediato, com o agora e já, do erguer tom e excesso numa espiral global onde graças a este maravilhoso novo mundo, o tipo do Seven tinha mesmo razão, já não se obtém a atenção de ninguém com uma leve palmada nas costas, apenas com uma esforçada marretada em crescente grau, de horror, de ruído cada vez mais alto, cada vez pior, mais horrendo, mais grotesco, mais arrepiante, mais doloroso, e raras vezes pelo mais admirável, pelo sublime, pela elevação, pela razão, pelo sóbrio, pelo humano, e ainda mais raras, pelo bondoso...

Que foi um ditador, foi-o de facto, que tinha a tal mansão e o tal iate, quando nas ruas, as mulheres se prostituíam, e todos mendigavam dólares, sim, não primou pelo exemplo, primou apenas na retórica e retórica sem exemplo é vã.
Sem ele não se conheceria o Ernesto “Che” Guevara, e talvez seja este o seu ponto redentor, o servir de plataforma a um homem íntegro, sincero, e heróico.

Dos ditadores terá sido contudo o mais idílico, poderia facilmente ter-se irmanado do seu povo e assim granjeado a outras alturas, mas dar o corpo às balas, é sempre demasiado definitivo, felizmente para quem o faz também é sempre irremediávelmente definidor.
Acho revoltante o ódio a Fidel, não o compartilho, condeno-o pontualmente, será para mim o meio-herói, meio-déspota, mas muito mais importante do que o seu despotismo, convém atentar ao seu idealismo, ao que o motivou, (que infelizmente não soube encarnar verdadeiramente) à liberdade de um povo acorrentado a uma superpotência que acorrenta todos os que lhes são contrários seja em que continente for, que não tolera o que dela diverge, nem dentro de portas, que tudo rende, tudo vende, e tudo é por um punho de dólares, tudo escraviza, tudo adultera, tudo corrompe, tudo consome, e ai de quem não consome, pois só consumindo, só tendo e só ostentando seremos um dia alguém aos olhos deste pai bêbado que nunca nos tolerou.
Não o considero um inimigo nem um déspota pleno, identifico-me muito mais no combate ao inimigo que ele defrontou toda a vida, do que com ele.
Se a democracia norte-americana é um bem de tal modo desejável, cobiçável, todo o mundo viveria nela, todos já o teriam imitado e clonado, não teria de ser imposta sempre à coronhada, que o então império soviético também era deplorável, nos seus gulags, nas suas perseguições ideológicas, nos seus muros, claro que também o é, o que nos salva ainda são as aldeias a todos os níveis e não os impérios, os impérios esmagam, acorrentam, prendem, matam, condenam, as aldeias, a comunidade é onde todos são primos, onde todos são família, onde há sentido de comunidade e é essa a pátria, é essa a família, onde o pão é partilhado, onde o erro é corrigido pela família, onde por longe que se esteja alguém mesmo longe estende a mão e ajuda.
Onde até se pode saber pouco de letras, ou do que for mas há vida no seu estado mais original, perto da terra, do que se come, do que se bebe, do que se veste, do que se é na essência.

E mesmo com dores para o seu povo, a meu ver oriundas do tal embargo, sendo que o mal de Fidel foi não ter compartilhado a sua dor, à semelhança do Pepe Mujica, que doa 90% dos seus rendimentos enquanto presidente do Uruguai, foi esse o seu pecado capital, mas conservou Cuba até hoje como postal de uma era que já não existe, é um postal doloroso para todos os cubanos, mas é um postal de que todos podemos ainda beneficiar.

O inimigo de Fidel o imperialismo, os “Ianques” enquanto império e super potência sobrevivente, monolítica, o Alto Império do Capital, onde tudo é reduzível ao $ está falhado, e vemos já como está falhado, para nosso grande mal iremos ver nos próximos quatro anos como está falhado, os seus valores, a sua moral, a sua ética, o seu boçal mercenariato, o império está falhado, temo apenas que nos seus tremores em agonia, seja de tal forma violento o seu morrer, que com ele morra tudo e morramos todos...

Não haverá mais ninguém neste mundo além de mim a desejar um cancro dos testículos ao Trump?



 Mas o futuro a Deus pertence.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Pato Donald

Desde que me lembro de ser que nunca achei piada nenhuma à política, em criança olhava para eleições como uma espécie de desafio de futebol em que a "equipa" que os meus pais gostavam, ora à esquerda ora à direita, esses eram os "bons" os outros eram os "maus".
Só com a adolescência e com alguém que ainda hoje me define mais que o cálcio dos ossos, é que abri a mente a opiniões que não eram defendidas em minha casa, e foi essa minha verdadeira heroína, então e ainda hoje, que me inspirou a conhecer o "outro lado" além de PSD e CDS e estou-lhe eternamente grato.
Hoje em dia não ponho fé alguma quer na esquerda quer na direita, ocasionalmente surgem figuras a quem reconheço alguma propensão para algo mais correcto e válido apenas para serem esmagadas sob o peso de toda a máquina política internacional, pelo poder económico estrangeiro, por empresas privadas.
Há duas figuras que actualmente tenho nessa consideração, o Papa Chico, embora em algum desgaste, e o Presidente Marcelo, de resto... Nada de promissor.

O ser a quem hoje foi dada uma das cadeiras mais poderosas em que um ser humano pode sentar o rabo, é boçal, é agressivo, é xenófobo, é misógeno, é um dos mais tristes exemplos de ser com algum dinheiro que vi, descende dum avô alemão que rumou aos Estados unidos e fez fortuna a extorquir e a prostituir mulheres, o neto não anda nada longe.
Que a sua opositora era também uma fraca figura, era, que se tratava de escolher entre o mal menor, sim tratava...
E é desse género de decisões que estou farto, perdido e farto de cansado, estou farto de em política ter de escolher entre o mal menor, entre o Passos e o Costa, entre o Soares e o Cavaco, entre seres que sei que se vão borrifar para o que é o bem da nação e a primeira coisa que vão pensar é: "Ora bem vamos lá ganhar uns trocos a sério!"
Este gebo de capacho, é a apoteose desse modelo, este gajo cavalgou em demagogia, inflamando ódios numa sociedade já dividia por demasiado ódio, apelou ao medo que também a corrói, e representou o papel do Santo paladino que irá fazer daquela terra algo próspero e bom...
A terra já era próspera e boa, as suas gentes são trabalhadoras, corajosas, empreendedoras, divertidas, animadas e de lá vêm exemplos de arte e conduta que me comovem...
São contudo um povo dividido, uma cultura jovem, e profundamente ignorante, do que é o mundo além do que eles conhecem, do que é uma civilização milenar, como as que nós conhecemos na escola, e que apesar de serem uma geração jovem, imberbe, não significa que mereçam o nosso ódio, merecem sim a nossa cooperação, merecem que lhes ensinemos com calma e paciência como quem educa uma criança irrequieta (um Calvin) o que é a bondade, o que é a arte, o que é belo, o que é verdadeiramente ético e o que é verdadeiramente humano.
Mais que medo, mais que ódio, precisam de calma, de paciência e... acima de tudo de amor...
Amor pelos seus milhões que vivem afogados em medo, amor pelos seus milhões pobres, amor pelos seus milhões pedintes, amor pelos seus milhões ostracizados, amor pelos seus milhões de soldados mortos e mutilados a quem a Europa tanto deve, amor pelos que não podem adoecer sob pena de perderem o trabalho e com isso viverem ainda mais miseráveis, amor pelos que num i-phone e num i-pad dado no Natal conhecem os únicos lampejos de afecto duns pais que se esfolam no escritório e que nunca vêem, amor pelos ignorantes que julgam que tudo o que é preto, árabe, gay, ateu, católico, latino, gordo, magro, pobre, em suma diferente, deve ser temido e irradicado da face da terra, amor pelos que pensam ainda que Deus irá fazer isso, que Deus irá exterminar e matar, condenar a fogos eternos todos os que não forem exactamente iguais aos que os demagogos e pastores que se enchem de dinheiro e poder por afirmarem e incentivaram ao ódio em nome de um Deus... Que é um Deus de amor, que quero querer que é um Deus de amor, ou hoje juro que se Ele não for um Deus de amor, EU Sou-lhe contrário, mas ele é um Deus de amor, e ele sofre por ver tantos revestidos de ódio e medo, de raiva e cegueira de serem conduzidos como asnos, com palas tecidas a medo e ódio, por homens que se dizem servos de Deus quando só apelam ao conformismo e à obediência a uma humanidade em que nenhum é igual a nenhum outro, mas todos são igualmente válidos, todos têm igualmente o mesmo direito a existir, a ser, a viver e a viver felizes, criam tabus, criam ódios, criam regras infindas quando a única Lei é o Amor.

O tipo que hoje senta o rabo na casa branca é a súmula de muitos males, é um fogareiro de ódios e de medo, capitaliza e prospera quando todos viverem imersos nessa maldade, é um mercador, é um mercenário, é um pobre diabo que nunca aprendeu o calor de um amor, é alguém tão miserável que só no seu saldo bancário vê valor, é alguém que é capaz de insultar uma mãe que amamenta em público, é alguém miserável, e a que rezo e espero em Deus aos olhos de quem todos somos pobres, até o Trump, principalmente o Trump, é alguém que espero e rezo a quem possamos sobreviver, ao pouco de nós livres bons, humanos e verdadeiramente éticos, que esse último reduto de nós, possa sobreviver aos quatro anos de inferno que hoje começam.

domingo, 23 de outubro de 2016

Abaixo a Reacção (viva o motor a hélice)

Já passou quase um ano desde as últimas eleições legislativas, e passado um ano desta nojeira posso concluír várias coisas.
Aquilo que o PSD promete, em campanha eleitoral e aquilo que cumpre quando se apanha no governo, nunca se cumpre porque há sempre "um colossal desvio"...
Bem como aquilo que o PS promete quando está em campanha eleitoral e quando se apanha no governo "há um buraco".
Ambos vociferam mundos e fundos contra quem se encontra aos comandos escudando-se nos interesses do "povo", dos "reformados", dos "pensionistas", das "minorias", dos "desfavorecidos", "dos mais desprotegidos" muitas vezes contra medidas que eles próprios promulgam, e quando se encontram na governação são medidas estruturais imprescindíveis aos comandos e aos desígnios da nação, são sacrifícios necessários, e que os pensionistas, os reformados, os doentes, as minorias, o povo, esses lambões subsídio-dependentes, essa corja de calões, esses arrivistas que têm a audácia de exigir uma vida acima dos 530,00€ por oito horas de trabalho diário, que têm a pretensão de sair de casa dos pais, de ter uma família e essa perfeita loucura que é ter filhos, que desperdiçaram anos e dinheiro, os melhores anos duma juventude nos bancos de uma faculdade para poder contribuir para uma sociedade de uma forma que os realize, para poderem talvez ganhar um pouco mais que os tais 530,00 €, para que assim que acabado o curso terem à sua frente mais um estágio, mais uma formação, mais um exame, para lhes ser exigida experiência e competências que só podem adquirir sendo explorados, e esmifrados, quebrados como cavalos pelas rédeas daqueles que já foram por sua vez quebrados, mais uma pequena barreira a vencer para que possam começar a ganhar a sua vida completamente agrilhoados a uma engrenagem laboral inclemente, à qual têm de vender corpo e alma, pelos tais 530,00 € sem nunca ter a pretensão de adoecer ou pior ainda... engravidar.
Do CDS ao bloco com tudo pelo meio, erubescem os rostos quando na oposição, clamam e bradam alto os valores idílicos de uma democracia cujo nome cada vez mais parece uma piada negra, apelidam de reacionários, de fascistas, ou de radicais, extremistas, quando no governo cobram ou pretendem cobrar aquilo que até há um ano nascia de graça, a exposição solar, a caça ao imposto, já não se trata de uma necessidade para a manutenção das infraestruturas dos serviços públicos, trata-se de um saque para que se alimentem principescamente, para se rebolarem em lençóis de seda, em veículos de alta cilindrada trocados de seis em seis meses, (que não são clios com muita pena minha) torneios de golfe, refeições diárias, desde caviar Beluga a dom Perignon iguarias do mais fino e requintado por um preço inferior ao de uma senha de refeição de um menor numa qualquer escola pública, (que comerá argamassa e livre-se de barafustar).
É isto que quer militantes de PSD quer do PS, ou de qualquer outro entendem ser justo e exigível? É este o papão que se esconde por detrás dos mercados e da sua inclemência, verdadeiro deus oculto, cthulu saído das profundezas da mente do H.P. Lovecraft, são estes os novos e inclementes deuses a quem temos de aplacar a ira, os ratings, a Europa, a Merkel?
Sempre temendo e rebolando-nos em desânimo e em terror cada vez que estoira uma bomba do estado Islâmico, de que a única e maior libertação são os acéfalos do secret story ou a jornada da Liga?
Haviam de me ter dito quando andava nos bancos de faculdade a que estaria reservado, para que passei meses de Agosto com os manuais de Direito Administrativo do Freitas do Amaral à frente devorando página sobre página, esfumaçando a tristeza profunda que me roía na alma, para isto, para agora ver demagogos e servilismos ao partido e dos partidos às chefias e à Europa, aos grandes grupos económicos, que acorrentam e reduzem a menos de nada quem tem a pretensão de comer e dar de comer aos seus, é este o Glorioso Portugal que 40 anos volvidos dessa aurora libertária do 25 de Abril de 74, nos é legado como o sonho em construção, como um Portugal melhor, livre das múmias e vampiros do antigo regime, e ainda tão agrilhoado aos seus desígnios e modos de pensar, às suas estruturas e ideologias, é por isto que anda um rapaz a exaurir recursos, saúde e vida, é por isto que se entenebrece o olhar a uma população inteira, a geração mais bem formada de sempre, que alimenta caixas do Pingo doce, e do continente, que adoece em call centers, que toma uma overdose de medicamentos quando já não tolera mais...
Deus me livre e guarde de algum dia me afiliar num partido e com isso endossar esta pouca vergonha.
Mas sim, sei que se por acaso isto estoirar e houver nova revolução, novo alvor libertário, nos primeiros momentos seriam capazes de pendurar o Passos e o Costa, de arrancar as unhas à Maria Luís, e de tatuar "Puta" na testa da Mortágua, e depois?
Bem depois, haveria um qualquer novo deus oculto que teria de ser satisfeito, cuja birra clamaria por mais um pequeno sacrifício na reestruturação da nova conjuntura, o trabalho voluntário, mais um requisito, mais um pouco...

Que raiva tão grande e que impotência maior por um país tão belo, com um povo tão nobre, tão enternecedor, sempre votado à mesma história, sempre convencido que "desta é que é!" quando nunca é... de olhar sempre macambúzio, pardacento e triste, Deus me livre e guarde de algum dia pertencer a um partido e ser mais um rastejante por uma raspa da forragem destes porcos.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Crónicas das Trevas Capítulo II (Maiores de 18)

Cristóvão Garcia Rodes e a Cátia, deparados com a caixa deixada pelo "Batata" à porta de casa dela, quando ele já estaria morto, meteram a caixa dentro de casa, Cristóvão guardou a carta do "batata" para Cátia onde este aludia ao desprezo do mundo moderno por forças ocultas que sempre estiveram entre nós, mas que o homem moderno despreza e ridiculariza a existência, a carta termina com uma mancha, deverá ter sido escrita pelo Batata nos seus últimos instantes de vida...
A caixa é de madeira gravada com baixos relevos parece ser antiquíssima, destoa nela um fecho metálico que parece ter sido colocado muito depois da sua concepção, aberto o fecho há um pequeno orifício circular, que parece constituir parte do mecanismo de fecho da caixa.
Cátia desvairada numa tentativa de abrir a caixa dá-lhe uma martelada que a danifica, Cristóvão consegue presuádi-la a fumar uma coisa que a relaxe, e enrola a mais épica ganza desde os tempos do Bob Marley, ela sorve-a de dois bafos e cai redonda num sono profundo.
Cristóvão a sós com a caixa, não a consegue abrir, entende que tem algo no seu interior, um corvo grasna-lhe na janela, assustando-o remexendo com a sua fobia ao grasnar de corvos, aproxima-se da janela e repara que o bicho olha fixamente a caixa, enxotado não se move, e continua a grasnar, cada vez mais forte, Cristóvão deixa-lhe cair o estore em cima.
Chama Levi o Judeu a casa de Cátia, aproveita para o avisar sobre as mulheres semelhantes à sua irmã que andam a desaparecer e mostra-lhe a caixa por o saber um homem relacionado à arte. Levi fotografa a caixa, e fica de dar notícias.
Cátia acorda e quer ir a casa do irmão, ao descer as escadas toca o telemóvel é Madalena Rodes, irmã de Cristóvão, enfermeira em Santarém, está toda contente com um namorado novo.
À saída encontra Esteves, que passou uma noite ao relento, pergunta a Cátia se lhe cede um sofá ela nega com repulsa, Cristóvão ingenuamente mete-lhe 25 € nas unhas e diz-lhe para ir dormir a uma pensão.
Chegados a Casa do Batata, a casa está o completo caos, remexida e vasculhada, completamente vandalizada, consegue encontrar um i-phone e um portátil completamente desfeitos, e um pequeno bloco de notas, com uma referência ao "Monhas" um pequeno criminoso.
Chega a polícia que os arrasta para os calabouços da Judiciária, sujeitando Cristóvão a um interrogatório que não destoaria nos tempos da PIDE, Cristóvão não tem outra saída que não colaborar e descrever tudo o que sabe sobe o batata a Cátia a caixa e sobre si mesmo ao Inspector Bernardo.
A judiciária leva-os de novo a casa de Cátia, verifica que a porta foi forçada, lá detro está a caixa, o Inspector Bernardo mete-a dentro de um saco de plástico hermético e leva-a consigo...
Está uma noite terrível troveja e chove, Cristóvão leva Cátia à cama, toroveja e do lado de fora da janela vê algo impossível, um impossível como aqueles que já vêm sendo comuns acontecerem, mas este é demasiado atemorizante para que possa ser ignorado, do lado de fora da janela, à chuva está um homem careca, a quem parte do maxilar inferior está apodrecido e desfeito, Cristóvão corre a apanhar o maior facalhão que consegue encontrar e abre a janela, não vê nada em baixo nem nos lados, olha para cima e cai-lhe um pouco de estuque na testa, lança-se em perseguição mas a escada de emergência envelhecida e podre começa a ruir, Cristóvão lança-se em voo para a janela, ficando dobrado sobre a abertura, Cátia ajuda-o a erguer-se.
Cristóvão diz-lhe que pegue nas suas coisas que vai dormir no seu quarto esta noite, ela recusa, ele diz que a contrata, ela recusa, e não sai dali, senta-se na sua cama e diz-lhe calmamente que sempre fora o seu irmão que a tranquilizara sobre a existência de monstros de seres estranhos e malévolos, que sempre fora o irmão que olhara por baixo da sua cama para a tranquilizar, pede-lhe que faça o mesmo, Cristóvão calmamente olha para baixo da cama e o que vê estoira com o pouco juízo que ele ainda tinha, debaixo da cama está Cátia de olhos raiados de vermelho arterial, em pânico olhando-o assustada e diz-lhe em voz baixa e carregada de pavor, “Cristóvão está alguém na minha cama...”