quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Asceta

O que eu dava para viver sem saber o que é o dinheiro.
É esta coisa insidiosa que se aloja desde tenra idade debaixo da pele, e nos faz padecer todos os dias sob a a sua completa ditadura, desde que o avô nos dá uma moeda, aos dias infindos suados em labuta para poder no fim e ao cabo viver, uma vez que em certas partes do globo até o ar já é engarrafado e pago ou entre taxas de oxigénio, tudo é pago, e o homem tornou-se num servo do vil metal, tentando agrafar desenfreadamente luxos e saldo ao corpo, ter cada vez mais na esperança vã de ser cada vez mais feliz, mas não é assim que as coisas funcionam.
Há ainda coisas que por muito trivializadas e ridicularizadas como manias de anciãos, são caminhos para a libertação do vil metal, um passeio, uma conversa com um amigo, um abraço, e embora o vil metal possa pagar (embora não devesse) todos os mais tresloucados e desviantes actos sexuais, não pode fazer nunca passar-se por amor.
Talvez o truque seja esse educar a alma para a simplicidade, e daí extraír consolo e alento, no sol que brilha, no mar, nos rios, na elementar e necessária presença da natureza, e no seu colo extraír força, é das melhores licções que aprendi nos últimos anos, uma licção a que resisti na minha imbecil juventude, onde tentei fazer do romance e dos afectos o sentido último da vida, quando não é, não tem de ser mas tudo nesses dias berra com tanta urgência e necessidade, talvez a calma e paciência da idade dos meus já quase quarenta sejam condição para  a correcta aprendizagem.
Ler, sonhar, deambular, escrever, conviver, tudo coisas que se fazem quase sem custo e que revitalizam a alma, exercitar o corpo e assim libertá-lo, atingir pelo suor o desprendimento do próprio corpo, e ao mesmo tempo esculpí-lo.
Mas viver sem ter conhecimento do que é o dinheiro, desse deus insidioso e oculto a que todos voluntáriamente ou involuntáriamente acabamos por adorar, esse anti-deus, a que até ateus rezam e adoram, esse ser que nos leva a martírios e penas auto-impostas na ânsia de poder agrafar mais um pertence ao nosso corpo, construir templos onde a traça roi e o pó impera, mausoléus erigidos ao sabor dos desejos e das necessidades, modestos ou megalómanos, tentando pelo material comer a ânsia que nos rói de paz, da tal paz que só se conquista e atinge pela antítese, castigando e educando o corpo atinge-se a sua libertação, do mesmo modo, refreando os impulsos consumistas os apetites e os desejos atinge-se a paz, é ascético eu sei, mas é verdade.

Só pela prática do inverso se atinge o resultado inicialmente desejado, e mesmo para ser capaz de praticar reiterada e consicientemente o bem, terá de se dar voz, pelo menos interna, e dialogar com o mal, por doloroso que seja, se a isso se resistir tudo o que de bom e justo em nós existe será reforçado, para os religiosos o exemplo disto é o retiro de Cristo quarenta dias e quarenta noites para o deserto, onde isolado de todos dialogou com o diabo, foi tentado por ele, e só após as três tentações a que foi submetido e ultrapassou regressou do deserto e começou a pregar, este diálogo com o mal é difícil de entender mas é necessário, temos de conversar com ele, entender por nós mesmos porque é errado e insidioso, e porque devemos ser-lhes opostos, se aceitarmos as licções de outros neste campo e não as trilharmos por nós mesmos, não teremos a robustez necessária para resistir às provações, pior passaremos pela vida escrevendo coisas que já foram escritas por outro, seremos plagiador e não autor, e amargos não viveremos de pleno direito, viveremos de empréstimo e seremos estrangeiros de nós mesmos, não definiremos a nossa vida.

domingo, 1 de outubro de 2017

Amor

Em dia de Autárquicas falar de amor é disconexo, mas vamos lá.

          Amor é uma utopia, é a maior expressão utópica do ser humano, é inalcançável, é inatingível, a maior parte das vezes é um chavão para fazer adolescentes comprar má música, ou mau cinema… Amor…
         Quando somos crianças é a definição de segurança, a mãe e o pai, amam-nos, providenciarão para que estejamos permanentemente felizes e confortáveis, amor é nessa aurora segurança.
        Mais tarde amor, torna-se um ser exterior que por algum motivo nos faz acelarar o pulso nos faz desejar a sua companhia e o seu afecto, e dessa primeira vez é algo tão forte, que morremos ou queremos morrer se não o tivermos, e a maior parte das vezes não teremos.
       Mais tarde à medida que envelhecemos e perdemos brilho e esperança o amor torna-se algo que dê paz e algum conforto, alguma cumplicidade, um ser que nos ajude a partilhar a vida, algo morno, nem muito esplendoroso, nem muito apaixonado, algo que nos permite um pouco de paz pelas amarguras da vida.
         Depois há o amor religioso, o amor de um Deus que se sacrifica em torturas atrozes pelos seus, Deus imaculado redime deste modo a criatura falhada e dá o exemplo do que Ele entende ser Amor…
       E chegamos à conclusão que Amar desse modo seria a nossa ruína, é algo que por muito bons que sejamos, nos causa sempre algum medo, alguma cautela, algum receio por nós mesmos, pois esse abandono de nós em prol de outro, é algo que não somos em juízo capazes de conceber…
        Mesmo que esteja a escrever uma grande mentira e sejamos capazes de o fazer, não seremos capazes de o manter, de fazer predurar presistentemente, pelo que irá ficar demonstrado o meu ponto, o amor é efémero, é algo que aspiramos, que queremos que sintam por nós, é algo que nos estimula, mas não é algo que sejamos capazes de dar, de forma constante, permanente.

       Daí que o amor seja a tal utopia que referia, é algo que duvido sermos capazes de atingir e mesmo que o sejamos não o conseguiremos manter, contudo impele-nos, motiva-nos a melhorar, a aprimorar constantemente, é esse horizonte a que rumamos, é a força que nos motiva a melhorar, é nessa força que somos perfeitos, é verdadeiramente o elemento que compõs toda a criação, pois só essa força pode gerar, só essa força pode criar, e ligados a essa força primordial, ao nexo que tudo gera, somos capazes de tudo, é irracional, é primordial, é irrazoável, embora seja a única força verdadeiramente benigna, é a única forma de fazermos algo que nos supere, que crie algo duradouro, é agindo em amor, que somos unos com Deus, é aí que somos formados à Sua imagem e semelhança, é aí que somos verdadeiramente divinos.

domingo, 10 de setembro de 2017

Do casamento ao óbito

Abel irritado, frustrado, agonizante com a sua solitária situação, foi até ao frigorífico onde jazia uma miserável sangria de mau tinto, de estômago vazio sorveu-a e em breve o seu minúsculo apartamento mexia-se com o ritmo de uma lâmpada de lava, uma vez neste estado voltou ao computador e escreveu regando a lágrimas uma bebedeira reles, artificial, desapaixonada, queria que ela o ouvisse, queria que ela visse como miserável era a sua podre vida, sem deslumbre sem magia, apenas um arrastar e esfumar de dias em dias, sem ordem ou razão, um viver por viver, sem rumo à deriva… Ela não o escutaria, Abel poderia berrar até à falência das suas cordas vocais que ela não ouviria ou conheceria um só “ai”, mas mesmo assim verteu nas teclas do seu fustigado teclado, o momento em que se conheceriam, imaginou-o num elevador, onde ele entrava e ela estava, chamara-lhe a atenção pela cicatriz que tinha no rosto, uma ferida num rosto de outro modo irrepreensivelmente belo, Abel não sabia a que andar se dirigia, perguntou-lhe em que piso era o Casamento, ela algo surpresa pela pergunta, não percebeu, ele corrigiu “Os registos civis um idiota dum amigo meu cansou-se de estar bem.” ela então entendeu “ah os registos civis, acho que são na cave, este elevador só leva aos óbitos.”
            Ambos riram, “bem talvez daqui a uns meses o paspalho do meu amigo vá aos óbitos pelo andar da carruagem” ela sorriu, “tem assim tão pouca fé no casamento?” ele entrou no elevador, “Bem vou consigo ver óbitos, e não tenho fé nenhuma num contrato celebrado para espantar solidões… o amor já é raro e precioso o suficiente sem ter toda a população a tentar fazer dele modo de vida sem o entender…” Sara olhou para ele rindo “ah ora cá está a pérola do dia, um sábio do amor!” Abel acusou o toque, “Sábio nem quando estou bêbado, conhecedor do amor, também não é mais uma utopia que desconheço…” o elevador chegou aos óbitos, as portas abriram, Sara não saiu “Bem vamos lá aos calabouços tirar o seu amigo da forca, os mortos não saem do sítio…” Na descida Sara esclareceu “então e usa amiúde elevadores para declarações de princípio?” Abel franziu o sobrolho, “Quase exclusivamente, algo que não possa ser dito do casamento ao óbito não vale a pena ser dito, mas já agora onde é que é o berçário?” Sara Engasgou-se “Isso já é noutro edifício…”
O telefone tocou Abel teve de parar de escrever, quando regressou tinha perdido o encadeamento, bebeu um pouco mais da sangria morna e adormeceu…
Sara entrou no elevador os vestidos de noiva eram no último andar, e a sua amiga que descobrira o amor numa rede social, por um filantropo detentor de um recorde de atletismo, duma mansão em Cascais, fundador de uma rede social, plantador de dez hectares de carvalhos que regava todas as semanas a balde, e ainda por cima giro que se fartava, a sua crédula amiga estava delirante, afinal o amor existia mesmo e pensar que encontra este príncipe numa caixa multibanco quando ele gentilmente lhe apanhou um talão que caíra ao chão, os contos de fada por vezes existem mesmo…
Sara perdida na futilidade de tentar encaixar algum juízo na cabeça imberbe da amiga, enquanto o elevador fechava as portas, quando um pé impediu as portas de se fecharem, atrás desse pé um sujeito com um ar de quem acabou de cair da cama, o sujeito perguntou “onde é que é o bebedouro desta pocilga?” enquanto ajeitava a sua a roupa desalinhada Sara riu-se “bem, ali acima já está a noiva, está-se a candidatar ao cargo?” “Cruzes canhoto, tinha de estar em pior estado.” “pior que isto? Defina isso, algures numa câmara frigorífica?” Abel olhou para ela sorridente, “a agência funerária deve ser acima dos vestidos de noiva, deve ser mais rentável, dado o volume de clientela.”

Ambos riram e pararam no bar um copo nunca matou ninguém.

sábado, 9 de setembro de 2017

Riso e cicatrizes

Sara acordou no seu sofá, a cara dorida e o corpo desconfortável, no chão ao seu lado estava o livro de ensaios que começara a escrever, leu o nome do autor do texto que lera na noite anterior, Abel Rodes, o livro pouco acrescentava sobre o autor em 1999 fora licenciado em ciência política, levantou-se e mastigou sem vontade um pequeno almoço insípido, uns cereais sensaborões, um copo de leite, estava de baixa, tinha tempo, pesquisou o nome do autor, nascido em Alfama, licenciado pela ISCSP, autor de alguns ensaios, pareceu-lhe alguém competente mas profundamente alienado e angustiado, pesquisou outros textos seus num blog já com dez anos que encontrou, escrevia com muita revolta, sobre sistemas políticos, idílico, utópico, irrazoável, não conseguiu deixar de sorrir… Escrevia de vez em quando textos a uma desconhecida, uma figura que ele próprio não conseguia definir.
Imaginava-a ferida, e havia algo que repetia talvez para si, talvez para ela, ou ambos, como algo que se intui que se deve fazer, mas sem certeza, escrevia-lhe “as nossas cicatrizes são a nossa base, são elas que nos fazem erguer acima de nós mesmos, ou que nos quebram na sua dor…”
            Sara riu-se cansadamente, que saberia este tipo de dor? Na noite anterior, tinha sido atacada enquanto caminhava rumo a casa, um homem sem motivo ou razão fizera desfilar contra ela, um chorrilho de golpes de navalha sem aviso, atirara-a ao chão e de olhar baço pelo álcool desenhara-lhe um fio desde o canto do olho esquerdo ao maxilar, sem aviso, como começara, levantou-se e desapareceu, a cicatriz que lhe sulcara no rosto não desapareceria, era esta a sua dor… Vivia só e agora amedrontada de sair à rua...

            Abel estava cansado da sua revolta, era como se estivesse constantemente inebriado em ódio, via-se a si mesmo com olhos feios, não gostava de se ver assim, começara há meses a sentir-se assim feio, grotesco, e a culpa era daquela miúda, morava perto da faculdade, seria uma estudante nova, quando Abel já fazia uma pós graduação, cruzara-se uma vez com ele, e sem aviso ou nada que o fizesse antecipar, começou a apontar na sua direcção e a rir, um riso sádico, maldoso, carregado de escárnio, como se visse a coisa mais ridícula de sempre, um cruzamento entre uma barata e um percevejo, miserável e ridícula, ria agarrada ao estômago, alarvemente, em convulsões, Abel passara ao largo dela enquanto ela ria e ria e ria sem motivo aparente, os outros transeuntes olhavam para o cenário sem entender também, Abel saiu dali sem interpelar a rapariga, mas fixou-lhe o rosto…

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

1999 e 2010

Abel esmurrava possuído as pobres teclas do seu computador, escrevia palavras de insubmissão e de insurreição, Marx, Ernesto Guevara, Nestor Manko e Kropotkine eram betinhos bem postos perto da prosa que disparava da ponta dos seus dedos, como se subitamente fosse acometido pelo flagrante e derradeiro sentido da existência, e passava sempre pelo mesmo, era inegável, tudo teria que passar por dor e por amor, eram essas as traves mestras do crescimento e da vida, eram essas as letras do abecedário decerto que tinha tido as paixões inevitáveis à adolescência e tinha chegado ao corpo de algumas mulheres, mas o coração, amor, isso era ainda uma experiência que seria nova… deteve-se.
Pegou na lista dos seus contactos da sua agenda moleskine, começou no A e à medida que a avançava um sentimento formou-se e instalou-se, ia agora no H, e esse sentimento era avassalador, quando finalmente chegou ao Z… Em sete minutos e trezentos e vinte e seis contactos todos escritos na sua caligrafia nervosa, resumiu os seus contactos e o sentimento que o fazia chorar lágrimas gordas de raiva e dor era a evidência de que não havia uma única pessoa que inspirasse, merecesse, ou sequer fosse ler esta apologia à revolta que estava a descrever, não havia uma única mulher que tivesse amado, abriu um novo ficheiro no computador, e escreveu uma carta a essa pessoa, à desconhecida, à que mereceria o seu amor, mais que merecer aquela a quem imploraria que o aceitasse de peito aberto e sangrante, rendido e suplicante, e aí mergulhou ao fundo de si e descobriu uma voz que não era sua, nem era sequer uma voz conhecida, era a voz que falava a algo idílico, profundamente seu, mas mesmo assim… exterior.
Escreveu imaginando um rio, as suas encostas ao por do sol e ela… contida nos seus braços observando o céu a rebentar em vermelhos rosas e laranjas, e o sentimento de perfeita paz serena em que se aninhava, a mulher que estava nos seus braços em paz também apesar da cicatriz que lhe sulcava o rosto, ferida e apesar dos seus ferimentos, crescendo com eles, definida por elas, mas superando-os e transformando-os em sentido e força, tal como Abel ferido pela sua ausência de companhia, de sustentação. Aí havia paz e Abel serenou, as mãos relaxaram, os dedos passaram a dançar em torno das teclas em vez de as agredirem, teve um vislumbre de paz… Fumou um cigarro imerso nessa paz, publicou o seu texto num blog de vários autores, e dormiu…

Sara saía das urgências, gaze envolvia-lhe o rosto, e ainda sentia a faca que a cortara, ainda sentia o bafo quente e nauseabundo de álcool do bêbado que a assaltara sem motivo aparente, chegou a casa e removeu a gaze, a ferida suturada era como uma lágrima que lhe corria desde o canto do olho esquerdo até ao maxilar, uma lágrima constante da qual nunca se livraria, fez o curativo, pegou na colectânea de ensaios, queria só ler um pouco antes de dormir, perder-se um pouco noutra dor que não a sua, e leu sobre um por do sol nas encostas de um rio, uma mulher contida nos braços de um homem que nunca, até então, amara, que dor seria essa, nunca ter amado… conhecia as margens daquele rio era o Douro a forma como descrevia as margens só podia ser o Douro, um céptico abraçado a uma mulher com uma cicatriz nas margens do Douro, adormeceu embalada pela paz que essa imagem lhe invocou.

domingo, 25 de junho de 2017

Divórcio

 António da Luz Santos André, solteiro, maior, de mente cada vez menos sã, contudo declara a sua firme intenção de se divorciar desta realidade pardacenta, cinzenta, mesquinha, atrofiante, mercenária, aviltante, conformista e conformante, declaro-me insatizfeito com toda a espécie de justiça a começar pela divina, que nos condena a todo o género de torturas, "pois Deus as suportou!" Onde Coreanos, Trampas, Árabes, fundamentalistas, doidos varridos de todas as espécies Zé Eduardos, Cavacos, Sócrates, vão enchendo a pança à custa de todo o género de esquemas e falcatruas e justiça divina a existir fuminá-los-ia coriscante em raios assim que saíssem à rua, não me falem em justiça divina pois a não ser que os cozam no meio de tormentos que fariam o Torquemada (outro) fechar os olhos como uma adolescente num filme de terror, não a aceito.
Muito menos aceito a humana, a pretexto da qual por detalhes técnicos e por todo o meio de expedientes é possível livrar do cadafalso, a verdade é que não há justiça, a havê-la seria pelo Ricardo Salgado que passaria todos os dias a caminho do Ginásio e ali numa parede mais abrigada seria sempre a ele que o veria de longas barbas e ar ressacado e não o desgraçado que sempre lá vejo acompanhado de tinto de pacote, a cagar em via pública, a justiça humana a existir e a ser boa, teria o Carlos Silvino castrado, químicamente ou físicamente como preferirem, mas impossiblitado de ter, ou levantar, a pila, a justiça humana a existir e a ser boa daria ampla satisfação e redenção aos injustiçados, aos expropriados, aos humilhados, não só não dá, como nem chega a parco consolo.

É Profundamente lixado com Deus e com o os homens, que me divorcio da realidade e nela não residirei um só minuto a mais que o necessário, que o exigido por trabalho, por um amigo, ou por outra causa que considere meritória, tenciono emigrar para terras de imaginação e lá estabelecer residência, é em mundos que nunca existiram que vou residir, em mundos onde a tal justiça sacie, e seja plena, onde haja um grama de decência, onde possa alcançar paz e alguma tranquilidade, ou mero fascínio.
Quanto à minha alma imortal, vem comigo de malas e bagagens decidida a caso Deus no dia do meu Juízo me disser "Não me vieste adorar todos os Domingos, nem prestaste homenagem ao meu clero!" responder-lhe-ei, "Tu me formaste à tua imagem, sabendo de antemão toda a minha vida antes que eu fosse sequer nascido, tu desenhaste as minhas alegrias e as minhas dores, não entendo ainda com que fim e quiseste que nas minhas dores e nas faltas de sentido que elas geram, olhasse para ti e visse exemplo, de submissão, de serviço e de Amor, acima de tudo de amor, mas de que serve o amor a um Deus que não escuto, nem sinto, que é um ideal, um mito, que quero sentir, que tudo faria para que me estoirasse no peito como há uns anos, mas a verdade é que apenas ouço rugires de dor e de tormento quando o busco, o sangue dos mártires, que morreram em dor proclamando-o, e para que é preciso sofrer por um Deus de amor? Que necessidade tem um Deus da dor dos seus seguidores? É prova de amor? Sente-se acompanhado pelo nosso infortúnio? Será o sal das nossas lágrimas tempero da sua imortalidade? Teremos pelo Seu Calvário de errar pela terra esmurrando o próprio peito, proclamando qual Job "Deus o deu, Deus o tirou, Bendito seja Deus?"

NÃO

Recuso-me, divorcio-me de um Deus que curou cegos e paralíticos, mudos e toda a sorte de crentes, e não ajuda todos os que sofrem, que escolha maldita terá no ventre materno feito um recém nascido com cancro? Uma criança, um qualquer homem? É ele quem decide que nasce em África e é condenado a um inferno vivo, e quem nasce nos Estados Unidos e que nunca conhecerá o que é ter sede fome ou privações de qualquer ordem?
É ele que decide quem nasce com um corpo escultural e esbelto atraeente e desejável a quem todos os pecados serão perdoados a quem a simples presença será um bálsamo e quem nasce gordo e pesado, doente e anafado, feio e macilento objecto de escárnio desde tenra idade até à cova, dos confins da solidão de um feio, das maldições que encerra em cada lágrima às paredes do seu quarto a cada pessoa que lhe nega afecto?

Divorcio-me disto, desta arbitrariedade desta falta de sentido, quando for o dia do meu julgamento e me pedir contas dir-lhe-ei, "condena-me ao que quiseres mas não te atrevas a dizeres-te um Deus de amor quando nos condenas a tanto sofrimento, viveste na pobreza material sim, passaste desde o Horto das Oliveiras ao fim da Cruz, tormentos como nem sequer imagino, e quantos mais não são torturados como ninguém imagina apenas por não arredarem pé de Crerem em ti?
Quanto são degolados, decepados, queimados, torturados, violados por se dizerem Cristãos? E onde está a justiça para eles, onde está a recompensa das suas dores? Onde está a mão que desfaz os seus opressores? Seremos todos Abéis, para tanto Caím?

Criaste-nos apenas para que te louvássemos?

A tudo isto não tenho resposta apenas falta de sentido e falta de resposta, até a ter divorcio-me, decido não residir neste mundo decido deambular o mais possível, decido viver onde a vida realmente faça sentido, decido viver onde haja beleza que possa tocar e que me deixe que eu a toque, Creio que Deus exista, Creio ainda que seja bom, mas já não Creio assim tanto na sua potência para evitar que o mal nos ocorra, aliás o mal tem de ocorrer, mas estou farto dele, se for penar, de acordo, já peno! Recuso contudo ter medo de Deus, a ter algo por Deus quero ter amizade e amor, nunca medo, estou farto de medo, medo já o mundo tem em farta demasia.
Quero um milagre para mim, nada menos me satisfará, nem que esse milagre seja o renascer da minha fé...

Até lá divorcio-me. 

terça-feira, 25 de abril de 2017

Choose 25 de Abril Sempre, choose your future, choose life

 Choose life, Choose freedom and democracy, choose 25 de Abril sempre o cravo na lapela e acreditar que finalmente somos livres.
Choose cinco mandatos do Cavaco, choose os comentários da Manuela Ferreira Leite, Choose uma esquerda políticamente correcta e uma direita mais impotente que um octagenário.
Choose Sócrates, Isaltino, e trombas de água chorada pelo Soares, Choose culpar os pensionistas, os subsídio dependentes, os ciganos, os pretos, os comunistas, os flauto freakys os perro freakys, a FENPROF, os homossexuais, e toda e qualquer minoria com costas largas o bastante para arcar com ódio mais sedimentado que o tecido adiposo do Fernando Mendes.
Choose aproveitar o 25 de Abril para ir à praia tirar uma selfie com o i-phone mais revolucionário de sempre com a sua bela capita com cravo e marcá-la com #25deAbrilsempre #revoluçãodoscravos e #1974forever.
Choose entoar a Grândola, choose ver o discurso da Assembleia e crer que as trevas já lá vão.
Choose cagar d'alto em ter um país servil e bajulador que olha para os países ditos de 1º mundo e implorar-lhes que nos encham as praias Algarvias, choose receber bem os ditos camones e rastejar pelos seus €€€ ao passo que migrantes e todos os turistas de pardieiro civilizacionais nem nos podem passar debaixo da penca, sem termos uma reacção semelhante a cheirar peixe podre.
Choose ir sempre na conversa da esquerda que ainda hoje e sempre berra bem alto "25 de Abril sempre!!!!" e nem nos damos conta que muito pelo qual vociferavam já é atingível era possível implementar, como o fim das touradas e do circo com animais e continuam a agir como se fossem oposição.
Choose ir na cantiga e botar um X escarrapachado em frente à fronha do Medina, e ignorar que meteu durante um ano Lisboa num pandemónio que se irá manter por bom tempo e será resolvido mesmo a tempo das seguintes eleições autárquicas.
Choose olhar emocionado para o Papa Chico nos 100 anos das aparições de Fátima, e ignorar os clérigos tresandantes a alho que no interior do país não dão a Eucaristia a divorciados, já agora choose ignorar os pecados que ainda assolam a própria Igreja Católica apesar do seu dingíssimo Sumo Pontífice e com os quais ele mesmo tanto luta, choose crer que Deus odeia os paneleiros, os drogados, as quengas, quando há dois mil anos eram esses os seus companheiros, menos quando eles contribuem em numerário para as obras, e mesmo assim exortá-los a emendar a vida.
Choose ter um país com uma história e culturas vastíssimas, e abastardar tudo para as Bershkas e Mangos, choose abrir um McDonald's em pleno Chiado num edifício histórico, quando a menos de 500 metros há uma igual e idêntica fábrica de enfartes e colestrol, onde se pode ir buscar um hambúrguer da melhor carne por 1€ e uma salada a 5€ (claro que faz sentido).
Choose a Cristina Pereira aos guinchos, a querida Júlia, o Goucha, e as mil e uma maneiras que desfilam na televisão nacional de por os miolos a marinar, choose seguir essa cambada toda por redes sociais, e botar-lhe likes à maluca quando elas dizem que adoram ir ao solário com cremes da marca X ou Y, anúncio esse devidamente pago e à custa de um pouco de carne nua os inergúmenos "likam" à grande.
Choose matar italianos no Derby, choose berrar bem alto pelo clube, choose ignorar que é essa a única forma de ódio correcta e institucional, que de um lado nos incentivam tímidamente a sermos correctos, cortezes, educados, gentis, de repudiarmos o racismo e de não tratarmos mal os animaizinhos, e choose ignorar que por outro lado dão tempo de antena ad nauseam, aos jogadores, aos treinadores, e logo ao Jesus que a cada intervenção faz o Camões dar três encarpados à rectaguarda, acirrarem ódios apelarem à divisão, virem os comentadores os rufias do recreio berrarem mais um bocado, e porem em cheque toda e qualquer boa educação, a tal que é tímidamente incentivada, e em nome de quê perguntam e bem? Pois claro pelo €€€€
Choose acreditar que é este o modelo que temos de seguir, choose crê-lo com fanatismo fundamentalista, choose repudiar qualquer outro modelo, choose nem ver que graças à sociedade de informação há milhentos outros modelos possíveis, mas este está sedimentado e desenrraízá-lo é duro tira €€€ a muito bom lambão e pior dava trabalho...

 Choose 25 de Abril Sempre
Choose your future
Choose Life.